sábado, 4 de maio de 2013

A USP estimula a iniquidade

Do Diário do Centro do Mundo - 4 de maio de 2013

A falta de cotas raciais na principal universidade brasileira é moralmente indefensável.
Tente encontrar um negro entre os calouros daUSP
 Tente encontrar um negro entre os calouros da USP
 Paulo Nogueira


Estou aqui de queixo caído.

Não.

Me lembrei de que, segundo os grandes filósofos, perplexidade é atributo dos tolos. “Não se espante com nada”, escreveu Sêneca. “Porque tudo se repete o tempo todo.”
Coloquemos assim.

Me chamou a atenção, negativamente, a notícia que li hoje na Folha. As três faculdades mais concorridas da USP não têm sequer um calouro negro.
Vou repetir: nem um. Zero.

Estamos em 2013. Em que ano está a USP?

Não existem cotas raciais lá, em nome de uma distorção criminosa e cínica da palavra meritocracia.

Mérito estaria na obtenção das notas necessárias para entrar na USP, pura e simplesmente.
Ora, ora, ora.

Que mérito existe nisso tão intransponível assim quando você estuda em escolas caras e concorre com alunos que enfrentaram o ensino público e jamais tiveram dinheiro para comprar livros, recorrer a professores particulares, fazer cursinhos e trocar de computador regularmente?

O sistema da USP, na verdade, perpetua a iniquidade.

É a negação da meritocracia.

Vejo que o novo reitor tem falado a favor de cotas raciais, mas sem poder de influência. Vejo que o governador Alckmin também já manifestou apoio, igualmente sem influência.

Há uma força inercial terrível que congela as coisas na USP e impede a modernização do pensamento.

Quero ver quem está por trás da negação da meritocracia, e pesquiso.

Claro.

Vou dar em Demetrio Magnolli, uma das cabelas mais reacionárias do país – e por isso mesmo uma personagem com presença frequente na mídia brasileira.

Magnolli dá, sobretudo à mídia das Organizações Globo, um pretenso verniz acadêmico a teses primitivas que significam, essencialmente, a manutenção de privilégios.

É uma daquelas pessoas que, estivéssemos na década de 1780, estariam se batendo por Versalhes, e que seriam tomadas de estupor reprobatório quando caísse a Bastilha.

Nada, a não ser o conservadorismo petrificado, justifica que seja mantido na USP um sistema que beneficia minúscula uma fração da sociedade já suficientemente privilegiada.

É um tapa na cara de todos nós a ausência de um só calouro nas três faculdades mais concorridas da USP.

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